
Comuna do Ibitipoca: um projeto socioambiental experimental
Preservação e regeneração do ecossistema são as suas principais propostas
Podemos definir a Comuna do Ibitipoca como um projeto socioambiental experimental que encontrou na hospitalidade uma forma de conscientizar as pessoas da necessidade de cuidar e regenerar o planeta.
Com uma área de mais de seis mil hectares, que se estende pelos municípios de Lima Duarte, Bias Fortes e Santa Rita do Ibitipoca, no estado de Minas Gerais, a propriedade forma um cinturão verde ao redor do Parque Estadual de Ibitipoca.

Quando falamos da Comuna, a imagem que nos vem à mente é a do Engenho Lodge – uma sede de fazenda com o lago na frente – mas ela é muito mais do que isso. Além de oferecer diferentes conceitos de hospedagem, quem se hospeda por lá tem a chance de entrar em profundo contato com a natureza, com as pessoas e, acima de tudo, conhecer e apoiar as iniciativas de conservação e de regeneração do ecosistema.
Turismo Regenerativo
Tudo começou no início da década de 1980, quando o empresário de Juiz de Fora, Renato Machado, começou a adquirir as terras próximas ao parque estadual do Ibitipoca com o objetivo de preservar e recuperar as matas degradadas do entorno.
“Ao comprar os terrenos, além de conservar, ele queria que as pessoas continuassem morando no local e encontrou no turismo uma forma de manter as tradições regionais. Foi assim que surgiu o Engenho Lodge”, conta Claudia Baumgratz, diretora de hospitalidade do Engenho.
A Comuna do Ibitipoca é um excelente exemplo de turismo regenerativo no Brasil, pois nasceu com a proposta de recuperar uma enorme área que havia se tornado pasto. Atualmente, 99% do terreno está em processo de rewild – reabilitação da flora e fauna nativas da Mata Atlântica.

Mas, o que é o turismo regenerativo? Segundo Anna Pollock, consultora e fundadora da Conscious Travel, o turismo regenerativo envolve as pessoas e os lugares (destinos) como um todo e ajuda a desenvolver condições férteis para que toda a vida prospere. Ele busca não apenas preservar, mas também recuperar, resgatar e regenerar os impactos negativos que já causamos para os ecossistemas, culturas e indivíduos enquanto atividade turística
Manter o equilíbrio da biodiversidade por meio de ações de preservação ambiental focadas em reabilitar as áreas verdes que já foram degradadas. Foi com essa missão que nasceu a Comuna do Ibitipoca (antes chamada de Reserva do Ibiitpoca) mas somente há uns 10 anos que o proprietário resolveu transformar a sede da fazenda – o Engenho – em um meio de hospedagem.
Diferentes conceitos hospedagens
Atualmente, a Comuna oferece três conceitos de hospedagem e com propostas bem distintas – ENGENHO, VILLAGE e REMOTE
O projeto pioneiro de hospitalidade – o ENGENHO – engloba o Engenho Lodge e a Carlinhos House. As duas construções ficam bem próximas e são as opções mais luxuosas da Comuna e ideais para grupos de amigos e famílias.

Com apenas oito quartos, o Engenho Lodge, foi totalmente reconstruído dentro dos princípios da sustentabilidade e do resgate da cultura local. Vários objetos antigos garimpados em antiquários decoram os ambientes e conferem um certo ar nostálgico, enquanto uma coleção de cachaças adorna a parede da varanda.
Fiquei hospedada no Engenho Lodge na suíte Gran Reserva com 50m2, uma linda banheira de pedra sabão e vista para as famosas jaboticabeiras – um dos lugares em que o café da manhã é servido.
Enquanto a Carlinhos House é uma típica casa de fazenda bem intimista e com apenas três quartos
O Village situa-se na comunidade do Mogol, que tem apenas 20 moradores e fica no alto de uma montanha com sua igreja de 1917 no centro da praça. O Mogol estava virando uma vila fantasma devido ao êxodo rural, então o Renato, que já era proprietário de todas as terras do entorno, decidiu investir no povoado para criar uma comunidade modelo sustentável.

As moradias de produtores rurais que deixaram a comunidade foram restauradas e transformadas em casas privativas, que abrigam as acomodações, restaurante, spa, além da área administrativa.
As acomodações apresentam uma proposta minimalista e a simplicidade da vida do interior, mas sem deixar de lado o conforto. As casas são temáticas e nomes como do escritor João Guimarães Rosa, do psicanalista Sigmund Freud e do Alexander Von Humboldt serviram de inspiração para os projetos.
Já as hospedagens do Remote, como o próprio nome diz, estão em lugares remotos dentro da Comuna e são destinadas para hóspedes que buscam momentos únicos e privacidade – já que o acesso a esses locais se faz por meio de caminhada, bicicleta ou, até mesmo, helicóptero.
O loft Isgoné, por exemplo, está situado no ponto mais alto do terreno, a 1.500 metros de altitude, e com vista 360 graus. Um ambiente integrado (quarto, sala e cozinha) e banheiro externo, é o cenário perfeito para uma noite romântica! Enquanto a Areião House está localizada em um dos pontos mais distantes da sede, oferece dois quartos, sala e cozinha.
Cozinha mineira
Grande parte dos alimentos utilizados nas refeições é produzido, de forma orgânica, na própria Comuna ou no entorno, e com a proposta de oferecer uma gastronomia sustentável, optaram pela redução de proteína animal dos cardápios.
No Engenho, a gastronomia transita entre a tradicional culinária mineira preparada no forno a lenha (no almoço) e uma seleção de pratos do jantar à la carte assinados pelo chef Claude Troisgros. O café da manhã é um capítulo a parte com muitas delicias da região, como pão de queijo e o tradicional pão de canela, além de pães, frutas e maravilhosos bolos.
Enquanto o restaurante vegetariano Yucca, que fica no Village, oferece pratos 100% vegetarianos e delicosos. Para quem se hospedar nas casa do remote, há a opção de receberem um mise en place com os ingredientes já cortadas e as instruções para finalizar a receita.
Bem- estar
Encravada nas serras de Minas Gerais, a Comuna do Ibitipoca é um verdadeiro paraíso para quem quer fazer uma imersão na natureza e se energizar. Todas as experências têm como pano de fundo a fauna e a flora, e foram formatadas para que os hóspedes desfrutem, ao máximo, as belezas naturais e sejam sempre surpreendidos.
Os hóspedes têm à disposição mais de 200 km de trilhas, cachoeiras, piscinas naturais, grutas e lagoa, além de passeios de bicicleta e cavalgadas. Um dos lugares especiais é a Prainha – ideal para nadar, tomar sol, ler ou fazer nada – que fica bem próxima ao Engenho, uma caminhada de menos de 2 Km.
Tanto o Engenho quanto o Village oferecem um pequeno spa e aulas de yoga todos dos dias pela manhã.
Obras de arte
Muitas surpresas são reveladas durante a estadia, como as obras de arte espalhadas pela propriedade, entre elas as monumentais esculturas expostas no platô na Pedra do Tatu. As sete estátuas feitas de sucata industrial, criadas pela artista plástica americana Karen Cusolito, que representam diferentes povos, religiões e sentimentos, já se tornaram um dos cartões-postais da Comuna.
As gigantes esculturas de ferro foram criadas para o festival Burning Man, que acontece no deserto de Nevada (EUA), e compradas pelo proprietário da Comuna, em 2012, depois de uma longa negociação com a artista plástica. A ideia inicial era comprar somente uma delas, mas Karen Cusolito disse que só venderia a família inteira e ela foi até a Comuna para conhecer e aprovar o lugar onde suas “filhas” iriam morar. O transporte das peças, dos EUA ao Brasil, foi uma verdadeira saga – as obras vieram de São Francisco até Santos de navio e depois até a Comuna de carretas.
Projetos socioambientais
A responsabilidade socioambiental pauta as diretrizes da Comuna do Ibitipoca, que desenvolveu iniciativas como a reintrodução de animais em extinção da Mata Atlântica por meio do Projeto Refauna, educação ambiental para a comunidade e incentivo ao empreendedorismo local. Um casal de araras, a Nina e o Antonio foram resgatados e vivem no Engenho.
“Para que a regeneração das áreas degradadas aconteça precisamos refaunar e reintroduzir principalmente os animais de grande porte, pois eles ajudam na dispersão das sementes. Sempre observamos quais espécies podemos reintroduzir naquele determinado momento. Até hoje, já reinserimos na natureza muriqui, anta, arara, onça parda, macuco, jacutinga”, conta Raquel Pazos, diretora executiva da Comuna.
Um dos projetos sociais desenvolvidos recentemente foi a Life School – idealizada para criar um modelo de educação de qualidade para pequenas comunidades. “Nos inspiramos na filosofia da Green School, em Bali, e utilizamos o método de educação por projetos e os artifícios que as crianças têm na comunidade para trazer o conhecimento. Devido à pandemia, atualmente temos apenas sete crianças que moram no Mogol, mas a ideia é expandir para outras comunidades”, revela Raquel. Os hóspedes também podem deixar seus filhos na escola durante a estadia, mas o ideal é que seja por, pelo menos, uma semana para que realmente haja um impacto na vida das crianças.
Cada atividade econômica (hospedagem, restaurante e spa, entre outras) é gerenciada por uma empresa para proporcionar uma maior sustentabilidade econômica, enquanto a Comuna é responsável pela implantação e as diretrizes do projeto. “Os empresários têm parâmetros a serem seguidos, tanto de valores quanto de excelência, tudo é monitorado”, finaliza a diretora executiva.
Onde fica a Comuna do Ibitipoca?
A Comuna fica a 4h de carro do Rio de Janeiro e a 7h de São Paulo. Mas você pode chegar pelo aeroporto de Juiz de Fora e pegar um transfer de aproximadamente 2h.
Fotos: Alessandra Leite e divulgação
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