Como é viajar de barco pela Amazônia

Uma imersão na maior floresta tropical do mundo com a Expedição Katerre

Neste post vou contar como foi a experiência de viajar de barco pela Amazônia, o roteiro que fiz com a Expedição Katerre, as atividades oferecidas e quando ir. Bem-vindos à Amazônia – a maior floresta tropical e a maior reserva de biodiversidade do planeta!!!

A Amazônia é nossa!!!!

Já faz algum tempo que eu queria viajar com a Expedição Katerre para vivenciar a Amazônia a bordo de um barco típico da região. Finalmente, no início de março, embarquei no Jacaré-Açu para fazer o roteiro Parque do Jaú, um dos itinerários oferecidos pela empresa.

Curtindo o fim do dia no deck do Jacaré-Açu

A viagem começou na cidade de Novo Airão (AM), a pouco mais de duas horas de carro de Manaus. Chegamos no restaurante flutuante Flor do Luar e fomos recepcionados com drinques e comidas recheadas de sabores amazônicos, como um tambaqui assado acompanhado de farofa, banana e baião de dois. Logo após o almoço e um temporal, com direito a muitos banzeiros (ondas intensas) no rio, embarcamos no Jacaré-Açu.

O barco de 64 pés oferece 8 cabines duplas com banheiro e ar-condicionado, além de uma sala de jantar (1º andar), sala de estar (2º andar) e um deck na parte superior que, diga-se de passagem, é o melhor local para ver o tempo passar bem devagar entre paisagens exuberantes de encher os olhos, boas conversas e risadas.

A tripulação conta com um guia, dois marinheiros, arrumadeira e duas cozinheiras que preparam as três refeições do dia (café da manhã, almoço e jantar) com muito carinho e ingredientes locais, como peixes pirarucu, tambaqui, matrinchã e tucunaré, assim como açaí, cupuaçu e tapioca. A comida não tem nenhuma sofisticação. Pratos simples e saborosos, assim como devem ser uma autêntica experiência amazônica. Juntou-se também a essa aventura, Ruy Carlos Tone, um dos sócios da Katerre e idealizador de um grande projeto social na região.

Desconectar para reconectar

Para entrar no barco, é necessário tirar os sapatos, que só iremos usar novamente nas trilhas. Nos despedimos do sinal de celular assim que começamos a navegar pelo Rio Negro rumo ao Parque Nacional do Jáu, declarado Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco.

O lema “desconectar para reconectar” dá o tom da viagem de barco pela Amazônia. Foram quatro dias off-line, sem saber o que estava acontecendo no mundo, uma das melhores terapias que o ser humano pode vivenciar.

1º dia de expedição na Amazônia

Assim que a embarcação começou a deslizar entre as centenas de ilhas do Parque Nacional de Anavilhanas – o segundo maior arquipélago fluvial do mundo – numa velocidade tranquila que nos faz respirar mais devagar e entrar no ritmo da Amazônia, o nosso guia Josué Basílio ( neto de índia da etnia tucana e de japonês) deu explicações sobre a programação da expedição, a fauna e flora da maior floresta tropical do mundo e também das diferenças da região nos períodos de seca e cheia dos rios.

Logo na primeira noite fomos convidados a dormir em uma rede no Mirante do Madadá, que abriga um quiosque de dois andares e sem paredes laterais. Em um primeiro momento, pernoitar no meio da floresta pode ser um tanto desconfortável se pensarmos nos animais que podem surgir, mas Josué ficou no piso inferior de prontidão para espreitar qualquer perigo.  

Dormir ouvindo os sons da mata e sentido a refrescante brisa nos faz sentir parte dessa gigante natureza.

2º dia de expedição

De volta ao barco, foi servido um farto café da manhã com direito a gostosuras produzidas ali no barco, como pão de queijo de tapioca, pão de mandioca, bolos e sucos! Em seguida, partimos para uma trilha de aproximadamente de quatro horas selva adentro.

Com descendência indígena, Josué conhece tudo sobre a selva e seus mistérios. Durante o percurso, ele demonstrou técnicas de sobrevivência na floresta, como escalar um pé de açaí usando uma cinta nos pés, esmagar formigas tapiba com as mãos que servem como repelente natural, fazer fogo com paina da palmeira.

O ponto alto da trilha são as Grutas do Madadá – conjunto de rochas (formadas por grandes blocos de arenitos) envoltos pela vegetação.

No final da trilha, fomos recompensados com um refrescante mergulho nas águas escuras e transparentes do rio Negro, antes de continuarmos a viagem.

Também fizemos uma parada rápida para conhecer uma das árvores mais suntuosas da Amazônia: a Samaúma.

Depois do almoço, a pedida foi relaxar no deck e apreciar as paisagens da floresta em meio a boas conversas até sermos presenteados com um pôr do sol arrebatador que reflete nas águas escuras do rio Negro.

Após o jantar, a atividade proposta foi dar uma volta na floresta de voadeira para fazer focagem de jacaré.  Josué encontra os pontinhos vermelhos luminosos nas margens do rio (os olhos dos jacarés brilham com as luzes da lanterna) , pega o filhote com as mãos e dá uma breve explicação antes de devolver ele na água.

3º dia de expedição

Despertamos às 5h30 e saímos novamente de voadeira para sentir o despertar da floresta e pescar piranhas, que foram servidas durante o almoço. Para falar a verdade, este não é o tipo de programa que me atrai, mas curti ficar no barco observando os sons da selva enquanto o restante do grupo estava animado com a pescaria.

Ao retornar ao barco, partimos em direção ao Parque Nacional do Jaú, onde é necessário parar na base do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) para a identificação dos passageiros, que devem assinar um livro. O sistema aquático do Parque e composto por 3 grandes rios (Unini ao norte, Carabinani ao sul e Jaú ao centro.

E continuamos pelo rio Jaú até a cachoeira do Carabinani que se forma em meio aos rochedos e ficam mais evidentes durante a época de seca. Como a viagem foi realizada na cheia, elas lembravam mais duchas de hidroterapia.

E, mais um fim de tarde no deck do Jacaré-Açu vislumbrando a floresta com direito a mais um espetáculo do sol se pondo. Próxima parada: comunidade ribeirinha da Cachoeira.

4º dia de expedição

Mais uma vez, acordamos bem cedo e fizemos um dos passeios mais especiais da expedição: visitar a Ilha dos Macacos Bicó (gênero Uacari, que tem a cara vermelha). Durante a época da cheia, a ilha fica inundada e perfeita para deslizar de canoa entre as árvores. Um verdadeiro cenário de filme!!!

A Ilha dos macacos Bicó, em preto e branco, por Andréa Castro

De volta à comunidade da Cachoeira, onde o Jacaré-Açu estava ancorado, fomos conhecer o povoado, onde moram 50 pessoas. Eles vivem da caça, da pesca e do plantio, principalmente da mandioca. Conhecemos a casa de farinha e também a pequena escola, com apenas uma sala de aula em que crianças de diferentes idades estudam juntas. A Katerre ajudou na construção da escola e da casa dos professores.

Deste ponto iniciamos, o nosso caminho de volta a Novo Airão , mas antes paramos em Airão Velho, na confluência dos rios Jaú e Negro. Uma cidade-fantasma com ruínas de casarões que foram engolidas pelas raízes e cipós da floresta. O povoado português foi um importante entreposto comercial durante o Ciclo da Borracha. Entretanto, no final da Segunda Guerra os ingleses começaram a comprar látex da Malásia e Airão faliu.

Os moradores abandonaram a cidade e mudaram-se para Novo Airão. Em 1980, a última família que morava no local foi embora e a cidade ficou completamente abandonada. Mas, no início dos anos 2000, ela ganhou um novo habitante, o Sr. Shigero Nakayma, um japonês de 65 anos, que vive sozinho ali.

Ele é uma espécie de guardião do local e fez um museu com as peças que encontrou quando foi para lá. Infelizmente, o Sr. Nakayama não estava lá durante a nossa visita e não pudemos conhecer este personagem que já ganhou as páginas do The New York Times com a sua história.

5º e último dia da expedição

Logo pela manhã desembarcamos em Novo Airão no flutuante do Mirante do Gavião – lodge que pertence aos mesmos proprietários da Katerre – e ali passamos a última noite da nossa viagem.

Mal chegamos no lodge e já saímos para conhecer o Flutuante dos Botos e ver de perto os simpáticos animais. A família que morava ali alimentava os botos e eles começaram a interagir com eles.O local virou uma atração turística e os botos vão diariamente lá para se alimentar em vários horários durante o dia. Não é permitido nadar, apenas assistir e tocar os animais.

Também fomos conhecer a Fundação Almerinda Malaquias, criada pelo suíço Jean-Daniel Vallotton, em 1997, e que hoje tem Ruy Carlos Tone como diretor. A instituição promove capacitação profissional para a população por meio do ensino do ofício da marcenaria e marchetaria (com resíduos de madeira legalizada) , e a educação ambiental para as crianças para conscientizá-las sobre a importância de preservar a maior floresta tropical do mundo.

Quando ir para a Amazônia?

Dependendo da época do ano, as paisagens são bem diferentes durante a viagem de barco pela Amazônia. Cada estação tem seus encantos e belezas e isso vai influenciar em alguns passeios. Enquanto na cheia (janeiro a junho) predominam os igarapés, canais dentro das matas principalmente nas áreas alagadas (igapós); na seca formam-se praias e cachoeiras.

Um dos momentos mágicos da viagem foi quando deslizamos de canoa entre os igarapés da Ilha dos Macacos Bicó. Este tipo de experiência só acontece durante a cheia. No período da seca é possível andar nesta ilha.

O idealizador da Expedição Katerre, Ruy Tone foi mochileiro por muito tempo, viajando principalmente pela América do Sul e Brasil. Foi assim que conheceu o País de norte a sul, leste a oeste. Montou a agência de viagens Mundus Travel há quase 20 anos e desenha roteiros para os lugares mais diferentes, principalmente aqueles que ele quer conhecer. Desta forma, acumulou mais de 120 países em seu currículo. Depois de rodar muito por este mundo e conhecer várias operações diferenciadas, Ruy resolveu investir no Brasil em um lugar que fizesse o viajante se perder em uma região. Em 2004, ele viajou para a Amazônia e conheceu o Cleber, que havia um barquinho chamado Katerre, e resolveu entrar como sócio investidor da empresa, que veio a se chamar Expedição Katerre. Nos anos seguintes, já com o Jacaré-Tinga – barco que conta com apenas três quartos -, a dupla desbravou o Rio Negro e seus afluentes, como o Jaú e Xixuaú. Foi apenas em 2010 que construíram uma embarcação maior, o Jacaré-Açu, formataram os roteiros e começaram a operar de fato. Quatro anos depois, nasceu o Mirante do Gavião.

Fotos: Alessandra Leite e Andréa Castro

Perfil

por Alessandra Leite

Editora do hotelnewstraveller.com.br

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