Santuários anti-sociais

Consumidores de luxo estão investindo viagens que proporcionam isolamento total

O luxo da saúde

No momento Covid-19, a ênfase na limpeza e privacidade está se tornando particularmente importante para os indivíduos de alto patrimônio líquido (chamados de high net-worth individuals  ou HNWI). Com a redução das compras não essenciais e a espera para conseguir viajar de novo, a pandemia está posicionando a saúde como o maior luxo de todos os consumidores que normalmente gastam mais.

“Com a saúde física e a segurança ameaçadas, o tempo gasto no isolamento forçou uma redefinição das prioridades dos consumidores”, comenta a presidente da Unity Marketing, Pamela Danziger. Ela observa que a pandemia de coronavírus virou de cabeça para baixo a Hierarquia das Necessidades de Maslow – uma pirâmide da psicologia que define cinco categorias de necessidades humanas, de forma hierárquica, proposta por Abraham Maslow.

As marcas devem se concentrar nos requisitos “básicos” para os HNWIs, como o acolhimento e segurança pessoal. No entanto, o apelo da vida de alto padrão permanece, já que 63% dos consumidores de alto poder aquisitivo “mal podem esperar” para sair de férias, de acordo com a mais recente pesquisa Affluent Perspective da YouGov, que realiza estudos de mercado.

Para equilibrar as preocupações de higiene com o retorno ao seu estilo de vida, esses indivíduos farão questão de evitar destinos e meios de transporte superlotados. Neste sentido, 25% dizem que tentarão evitar voos comerciais e transporte público em um mundo pós-Covid, segundo a LuggageHero, que oferece serviço de armazenamento de bagagem nas áreas centrais das grandes cidades. Esse resultado mostra que as operadoras de viagens de luxo devem se concentrar na privacidade e segurança, ao mesmo tempo em que os clientes mais ricos esperam em breve experimentarem o no “novo normal”.

Com a saúde física e a segurança ameaçadas, o tempo gasto no isolamento forçou uma redefinição das prioridades dos consumidores

Pamela Danziger, presidente da Unity Marketing

Estadias isoladas

Anteriormente acessíveis apenas aos ricaços, os iates, jatos particulares e reservas de resorts inteiros encontrarão um novo público (os aspirantes a consumidores de luxo) pois eles buscam escapadas com menos multidões, mais privacidade e viagens ao lado dos entes queridos. E as empresas de jatos particulares estão lançando iniciativas para atender a um aumento nas reservas.

O programa Jet-Yacht da VistaJet leva clientes para Malta, no Mediterrâneo, e os transporta diretamente para seus barcos. Por sua vez, o serviço permite que eles ignorem os requisitos de quarentena de Malta. Quando se trata de acomodação, os hotéis e resorts que operavam como espaços compartilhados estão mudando estratégias para permitir que apenas uma família ou grupo as reserve em sua totalidade, levando ao que está sendo chamado de distanciamento social “natural”.

Uma dessas propriedades é o Devil’s Thumb Ranch, em Denver, no Colorado, que oferece não só isolamento total para os hóspedes, mas também os benefícios do ar da montanha “limpo, fresco e com infusão de pinheiros”. Dando um passo adiante, as ilhas privadas estão sendo posicionadas como bolhas isoladas do paraíso para os HNWIs que buscam privacidade.

Kokomo é uma ilha particular em Fiji, na Oceania, que agora está disponível para reserva completa. A partir de US$ 150.000 por noite. Os hóspedes têm acesso VIP completo a residências de luxo e vilas à beira-mar, além das comodidades e atividades.

Hospitalidade reclusa

Antes rodeados de pessoas, os consumidores de luxo se tornarão cada vez mais cautelosos com o contato humano. Desde destinos a boates VIPs e restaurantes sofisticados, o novo luxo não será incomodado por ninguém.

Para alguns, isso significa adaptar a experiência sofisticada em um espaço confortável. Os chefs já estão vendo uma demanda enorme para reabrir restaurantes devido aos consumidores em quarentena que desejam restaurante com serviço de qualidade.

“Quando vão ao restaurante, devemos lembrar que as pessoas também buscam serviço. E quando você trabalha com entregas e retiradas, não oferece o serviço que elas buscam”, diz o chef executivo da Les Amis, Sebastien Lepinoy, com estrela Michelin em Cingapura.

Desmistificando a teoria de Lepinoy, o Lebua Hotels & Resorts lançou um serviço que recria uma boa experiência gastronômica nas casas dos moradores de Bangkok. Intitulado Hotel to Home, o programa custa US$ 6.000 para cinco pessoas e inclui uma refeição de sete pratos, um sommelier dedicado, arranjos da florista interna do hotel e serviço de babá.

Para aqueles que desejam obter esse serviço personalizado, mantendo a privacidade, o fornecedor de safári de ultraluxo Roar Africa lançou o Roar Privé, que convida turistas em um safári de oito dias com distanciamento social na África do Sul. Por US$ 60.000, os hóspedes podem garantir contato zero com outros seres humanos, com exceção de seu piloto, guia, mordomo e chef particulares.

Devemos lembrar que as pessoas quando vão ao restaurante também buscam o serviço. E quando você trabalha com entregas e retiradas, não oferece esse serviço

Sebastien Lepinoy, com estrela Michelin em Cingapura.

NOTAS:

  • O marketing durante a Covid-19 deve se concentrar em aliviar os medos dos viajantes, alinhando a marca com alto nível de padrões de higiene;
  • Em vez de se incorporar nas comunidades locais e nas cidades animadas, os viajantes buscarão destinos remotos, isolados e seguros;
  • Com o setor da hospitalidade em crise, as marcas podem atender clientes dinâmicos, que experimentem design e serviços inovadores em espaço privado que envolvem contato humano mínimo.

A matéria original Anti-Social Sanctuaries foi publicada no LS:N Global


Perfil

por Alessandra Leite

Editora do hotelnewstraveller.com.br

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